quarta-feira, 5 de maio de 2010


"...No meio da grande multidão eis que surgiu alguém
Que procurava ver o Rei de perto
Embora fosse o menor, por certo."
(Expresso Luz, Caminho de Jerusalém)

E aí eu começo a pensar nisso e me vem o comecinho daquela canção:"E no meio de tanta gente eu encontrei você..." E no meio de "tantas gentes", eu encontrei a mim mesma. No meio de um multidão de tantos outros falsos eus, descubro agora aos pouquinhos quem sou eu. Não que todos os outros sejam descartáveis, talvez cada eu tenha tido seu tempo de ser, e de certa maneira levaram sempre consigo uma essência multipolar minha, mas agora vou pouco a pouco me despindo.Antes eu tinha vergonha de ficar nua na frente do espelho,mas agora não tenho mais.
Aos poucos vou me despindo de todos esses personagens, aos poucos vou tirando a maquiagem e guardo o salto alto, sou uma drag queen ao contrário. Esfrego o rosto com as mãos e vagarosamente vou me lembrando de quem é que está alí atrás. Meus olhos pequenos e tortos, meu nariz grande, meu sorriso entregue, minhas lágrimas fartas, meu rosto largo. Do outro lado do espelho me acho. Vejo exatamente o que é. Sem tirar nem por. Sem prazer ou dor. Pudor?
Não tenho mais vergonha de não ser gigante,dentro dessa andorinha mora um cálido elefante. Falante, farto, mudo, amuado, leve, voador, em busca de verdade, liberdade e amor. Me reconheço pequena,me olho de cima pra baixo, de baixo pra cima, de dentro pra fora, de fora pra dentro. Sinto medo, mas lanço fora e não duvido, é hora de deixar aos poucos a perfeição se configurar nos defeitos. Efeitos?
Quando mais olho pra mim, mais vejo aquilo que é maior e invisível para além do meu eu. Vejo Deus. E aí sou como Zaqueu, o anão que se descobriu no meio da multidão. No meio de sua própria multidão de gigantes erros, ele se viu: um anão tentando vencer o mar de "gentes" que ele mesmo criou e nadando à procura de um cais,à procura de mais, à procura de paz.
No meio de sua própria multidão, Zaqueu encontrou salvação, olhou pra dentro, olhou pra fora,olhou pro alto, se dispôs, embora fosse o menor de todos os personagens que ele mesmo criou, aquele era o seu real valor. Pequeno, errado, mas sincero, sem vergonha, sem desculpas. Zaqueu queria olhar um verdadeiro Rei de perto, pq enxergou em si seu próprio deserto e se surpreendeu.
Dessa multidão de pessoas que moram em mim, eu sou a menor de todas. Eu me deixei diminuir, mas agora me olhando no espelho, me olhando nos olhos, eu vejo alma, vejo calma, vejo paz. Vejo Deus me olhando de perto e vergonha não há mais.
Sei que pra todas essas pessoas um história vai ficar, e não tenho pesar por isso, mas agora posso ser leve, posso ser pluma e não quero mais o peso dessa atuação desnecessária. Eu continuo sendo muitas, mas não mais pelo medo de não agradar e de não ser aceita. Continuo sendo o que a verdade me permitir ser, quero que ela seja minha liberdade.
Quero honestidade, sem grandes expectativas.
Quero apenas "...olhar o Rei de perto,embora eu seja o menor, por certo..."

(Brasília, 05 de maio de 2010)

2 comentários:

  1. Obrigada por me acalmar com o seu texto. Começo a ver por fim Zaqueu descendo da árvore. É tempo de recomeço, minha amiga.

    Te amo: Muito e eternamente.

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