Nesse momento,vc de costas pra mim e meu coração de frente para o que fomos nós. As palavras são muitas pra explicar o que é, o que não é mais.
A história da gente me revolta, me agita, me enternece e faz meu coração bater forte, quase saindo pela boca. É assim; no meio das suas confissões confusas ou talvez excusas, vc me descreve, me afirma para um outro alguém como fim; e que surpresa, vc não me viu aqui.
Meu coração está aqui, de frente para suas costas.Seu coração está numa outra história, ou talvez voando sem rumo por aí. O susto te faz olhar nos meus olhos. Minha presença assusta;de vez em quando talvez vc perceba um pouco de mim em algum pedaço de vc.Aos poucos não vai mais me ver e vai restar uma ausência que talvez tenha lugar e aí quem sabe você não vá mais se assustar.
"Os corações não batem numa mesma sintonia". De fato, vc tem razão. O meu hoje bate procurando por mim mesma e o seu procurando por razão. Vez ou outra os compassos se encontram ou não, mas nem por isso deixa de ser coração.
Você fala de seguir por outro caminho e de decisão; apesar de estar espremida por tanto sentimento, descubro nesse espaço apertado o lugar de cada coisa no meio dessa confusão.
Descubro que o meu lugar é onde o amor for morar, e se tiver ido bem longe é lá que eu vou buscar; descubro na icógnita que vc se tornou que de fato não vale mais a pena se machucar; uma ferida também tem beleza, desde que a gente entenda que já é hora de parar de apertar.
Descubro que meu motivo sempre será maior que eu e que por vezes eu deixo de pensar, mas descubro também que até dentro dessa superior motivação o respeito tem que ter seu lugar. Descubro que não sei separar as coisas agora que estou tentando ser uma coisa só; e aí sou tudo isso numa coisa só.
Só. Por falar nisso, não é a solidão que me impede de ver que tudo já teve fim; solidão não me assusta mais; até para isso descubro que também há lugar, e quando não temos ainda a condição de ser inteiro para outro é melhor mesmo que a gente se acolha só.
Olho para trás com um certo receio de estagnar, mas quando vejo o caminho adiante percebo a graça que me faz continuar. A tristeza tem também seu lugar, mas não vai pra sempre perdurar e nem me impedir de ver beleza por onde eu tiver que andar.
O que está por trás do vale, só o tempo é que dirá. Se de fato acabou, quem sou eu pra determinar...Sei que quando eu achar que tenho todas as respostas, as perguntas é que vão mudar. Sei também que tanto faz com quem é que vc vai ficar; desde que seja pleno, tenha paz e sinta que o amor merece sempre mais.
E é isso que me faz continuar...Meu coração é deformado, um músculo involuntário a pulsar no ritmo intenso das canções, mas ao mesmo tempo é um tecido leve, uma casa vazia convidando o sol para entrar e iluminar minha escuridão e me dar nova canção pra que eu aprenda a cantar. E por isso não quero mais ficar.
Não quero esmolas e nem ser a afirmação da segurança alheia pela não concretização. Quero centavinhos singelos, mas que sejam meus; quero noites escuras, mas que tenham luz; quero um abraço apertado até minha alma se sentir abraçada. E não quero pretensão; quero o ordinário, o trivial, o bobo. Não me armo para surpreender, porque já não há mais nada que eu tenha pra esconder. Me sinto a cada dia, um elefante dentro de uma andorinha: carrego o peso do mundo que sou, porque também somos aquilo que perdemos, mas carrego dentro o desejo eterno de voar.
Meu verão vai chegar e eu vou achar minha casa, eu vou lavar minhas asas pesadas de tanto caminho, vou me ver como sou no espelho e vou deitar no meu ninho.
(São Paulo, 23 de abril de 2010)

