terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ou isso ou aquilo


Ele prefere internet à televisão;
Eu prefiro uma casa no mato e o silêncio plantado no chão
Ele apaga as mensagens para manter a privacidade;
Eu guardo todas no baú da minha nostalgia e vaidade
Ele está tentando comprar um computador;
Eu queria que o meu funcionasse nas pedras do Arpoador
Ele já tem até um crédito aprovado;
Eu já caí em total descrédito num cofre mofado
Ele não quer pagar à vista;
Eu sempre fico devendo a vida
Ele sabe o que vai fazer de manhã;
Eu não queria acordar amanhã
Ele quer saudade medida: muito ou pouco;
Eu não tenho medida, só a intensidade do meu mundo louco
Ele quer um lugar longe dos vizinhos;
Eu quero ao menos companheiros bem velhinhos
Ele não tem coragem de correr perigo à noite;
Eu sou amante das madrugadas amigas e de insônias bandidas
Ele quer comer a menina do outro lado da linha;
Eu quero dormir o resto da vida de conchinha
Ele é um estúpido;
E eu? Tô sozinha.

04/08/10
UnB, Ouvindo conversas alheias no celular...


Para moças sem vícios


Aluga-se quarto para moças sem vício
Aluga-se o mundo para nunca ser visto
Aluga-se o tempo para passar despercebido
Percebo que o vento nunca tem nada com isso
Quero que isso nunca volte a ser aquilo
Quero que a cama me engula num vazio
Aluga-se um coração de moça;embrutecido
Aluga-se um terno para queimar num casamento
Aluga-se um termo para cair no esquecimento
Aluga-se um sonho concretado; aço e cimento
Ergo uma parede em lágrimas se dissolvendo
Aluga-se um bote para não se afogar em mágoas de um distante novembro
Aluga-se um abraço de conforto e arrependimento
Inauguro um novo céu na estrada ao relento
Reluto e acendo cigarros repetidos
E me dispeço do quarto para uma moça sem vícios.

04/08/10
UnB, Parada de Ônibus, Anúncio de um aluguel...


Quintal...



Aqui embaixo dessa árvore, no quintal do universo, nada é tão importante.
As formigas caminham dedicadas erguendo suas folhas e desviam-se dos rotineiros obstáculos.
A minúscula aranha cítrica caminha entre tantas folhas secas no abandono. Sobe em meus dedos, passeia nas folhas que eu me esforço para ler e logo se despede.
Olho para o lado e meu raio limitado de visão não enxerga nada, ninguém.
Nada além...
Ninguém? Quem?
As árvores continuam tecendo o céu, azul e infinito.
O sol continua testemunhando milagres silenciosos.
As formigas continuam seu trabalho organizado.
Eu esfrego os pés nas folhas secas e elas continuam fazendo música pra me acalmar.
O vento sopra um segredo para a minha pele guardar.
Os sons do mundo se harmonizam; os da cidade e os de cá.
O que eu estava lendo, resolvi deixar pra lá.
Um velho amigo já me perguntou e eu não vou saber explicar;
Será possível dizer em silêncio o que as palavras insistem em nos mostrar?
E aqui, nesse momento; eterno agora, me sinto tão arte, me sinto tão parte, que desprezo as palavras e continuo a contemplar.
O sol se despede e vem me beijar
Não é preciso dizer, nem é preciso se fazer entender.
Ninguém se liberta sozinho; nos libertamos em comunhão com o infinito.

Bsb, 22/06/10